Inspiração

Colecionar é preservar para o futuro

Texto de inspiração para o seminário do COMCOL, escrito por
Maria Ignez Mantovani Franco, Presidente do ICOM Brasil

Caros colegas

Maria Ignez MantovaniA história do colecionismo e as teorias e estudos já realizados sobre este tema tão apaixonante, convergem para a afirmação que os museus nascem e se retro alimentam de coleções.

Ao longo da existência humana o homem se relacionou e dialoga com os vestígios materiais e imateriais, ou seja, os objetos  – enquanto indicadores de memória que, agrupados em diferentes formas e sentidos, compõem coleções.

Os museus são lugares de memória por excelência, capazes de entrelaçar diferentes temporalidades, de agrupar diferentes coleções e lhes imprimir continuamente novos sentidos.

Colecionar é portanto eleger o que irá sobreviver ao tempo. Conservar um objeto através do tempo é optar no presente pela preservação do bem para o futuro.

A cadeia operatória da museologia consiste mais do que tudo em eleger e descartar. Mais do que eleger, nos cabe o descarte. O ato de selecionar, de escolher, de eleger constitui o exercício vivo da museologia que atribui valor social ao objeto eleito; ou seja, ao ser musealizado,  o objeto, bem artístico, científico ou patrimonial, passa a referenciar uma sociedade, e deve ser capaz de transcender ao tempo e se relacionar com outros conjuntos de objetos presentes e futuros, no museu.

Ao objeto selecionado e portanto musealizado, nos cabe acrescer pesquisa, contexto, sentidos, relações, experimentos. Ao objeto, mais do que tudo, nos cabe fazer perguntas. Mais do que explicar nos cabe indagar. O papel do Museu é portanto questionar perenemente o objeto e lhe atribuir novos sentidos.

Indagar o objeto é perguntar sobre o tempo e espaço que o representam, sobre outros objetos que o refereciam, sobre usos e costumes que o cercam, sobre as relações humanas que lhe dão sentido, sobre cadeias temporais, materiais e de fabricação que lhes atribuem valor, sobre novos usos que possam lhe ser atribuídos, enfim, os objetos existem muito mais para nos dar conta de ausências, lacunas, riscos e desejos, do que para compor, preencher ou retribuir .

O objeto museológico não é algo passivo. Ele não é estável e nem tampouco sereno. Ele é mutante, inquieto e provocante. Ao museu compete manter o desequilíbrio, a inquietação, a instabilidade, os novos ritmos, as novas leituras, as novas mutações, os novos arranjos com relação aos objetos e coleções que ele preserva.

Para que este movimento museológico seja contínuo a desestabilizar os objetos, nos cabe continuamente inovar, pesquisar, indagar, mudar, provocar, romper.

O Museu é portanto um espaço de mutação, que conserva algo vivo e dinâmico, capaz de transcender ao tempo e se relacionar com diferentes contextos. Uma instituição se pereniza pela capacidade de indagar diferentes sociedades, por meio dos objetos de sua coleção, através do tempo.

Finalizando, gostaria de cumprimentar, em nome do ICOM Brasil, o COMCOL /ICOM pela iniciativa de realização deste seminário, e desejar aos participantes uma jornada realmente instigante e inspiradora.

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